
Toda empresa conhece a cena. O melhor vendedor vira gerente, o técnico mais competente vira coordenador, o analista que sempre entregou vira supervisor. A promoção parece justa e lógica. Meses depois, a equipe está desmotivada, o novo líder está sobrecarregado e a empresa descobre que perdeu um ótimo profissional para ganhar um gestor despreparado.
O Relatório Missel–Mapnext de Competências Comportamentais 2026 ajuda a entender por que isso acontece com tanta frequência, e mostra que o problema é maior do que parece.
O que a pesquisa encontrou
O relatório analisou 2.958 avaliações comportamentais de profissionais que atuam em empresas de todo o Brasil, medindo 16 competências numa escala de intensidade de 0 a 100. Três delas formam o núcleo do papel de liderança: tomada de decisão, influência e delegação.
Entre os 993 profissionais que já ocupam cargos de liderança, gerência ou direção, 33,2% não apresentam nenhuma dessas três competências em alta intensidade (acima de 60 pontos). Outros 33,1% apresentam apenas uma. E apenas 7,9% reúnem as três.
Vale um esclarecimento importante: intensidade não é nota. Não se trata de dizer que esses líderes são ruins, e sim que os comportamentos que o cargo mais exige não aparecem com força no dia a dia deles. Na prática, isso significa decisões que demoram, equipes que não se mobilizam e tarefas que não saem da mesa de quem lidera.
O paradoxo da promoção
Se tantos líderes não têm o perfil que o cargo pede, como chegaram até ali? A resposta está no critério. Na maioria das empresas, a promoção é definida pelo resultado na posição atual, e pouco pela leitura dos desafios da nova posição.
Esse efeito já foi medido fora do Brasil. Um estudo publicado no Quarterly Journal of Economics acompanhou mais de 53 mil vendedores em 214 empresas americanas. As empresas promoviam justamente os melhores vendedores, mas, quanto melhor o vendedor antes da promoção, pior tendia a ser o desempenho da equipe depois dela: dobrar as vendas do profissional antes de ser promovido estava associado a uma queda de 7,5% nas vendas de cada subordinado.
O relatório mostra como esse paradoxo aparece no comportamento. Da operação à direção, sobem tomada de decisão (+9,3 pontos) e influência (+8,0). Mas descem organização (−5,2), conformidade (−5,4) e controle emocional (−4,4). As empresas premiam quem decide e convence, e perdem no caminho o método e o equilíbrio para decidir.
Outros dois dados chamam atenção. Apenas 13,7% dos líderes têm controle emocional em alta intensidade, contra 22,5% no nível operacional. E a combinação de influência alta com afetividade baixa é quase três vezes mais comum na liderança (11,8%) do que na operação (4,5%). Esse é um perfil que entrega muito resultado, mas desgasta as relações entre os membros da equipe.
O que isso custa
Um líder sem as competências centrais do papel não é um problema só de RH. Ele aparece no resultado:
• Decisões que sobem. Quando quem lidera decide pouco e delega menos ainda, tudo passa pela mesa de alguém acima. O relatório mostra que 45% dos profissionais brasileiros já operam abaixo da faixa de equilíbrio em autonomia. Somado a líderes que não delegam, o gargalo está desenhado.
• Equipes que se desgastam. Regulação emocional mais baixa em quem conduz faz a equipe calibrar o dia pelo humor da chefia. É uma das principais causas de saída voluntária e baixo engajamento.
• Promoções que não se sustentam. Quando o critério de promoção ignora os desafios do novo cargo, o resultado aparece em demissões após a promoção, queda de engajamento e rotatividade nas equipes. A empresa paga duas vezes: perde o bom profissional na função antiga e precisa recomeçar a busca para a nova.
• Crescimento travado. Só 7,5% dos profissionais do nível operacional têm duas ou três das competências de liderança em alta intensidade. Abrir uma nova unidade, um novo turno ou uma nova filial esbarra em gente, não em capital.
Onde o assessment comportamental entra
O padrão que o relatório revela só fica visível quando o comportamento é medido com o mesmo critério para todos. É exatamente o que um assessment faz, e ele pode mudar a forma como a empresa escolhe e desenvolve seus líderes:
1. Avaliar antes de promover. Em vez de olhar só para o desempenho atual, a empresa compara o perfil do candidato com o que a nova função exige. A pergunta deixa de ser "ele é bom no que faz?" e passa a ser "ele tem o perfil para o que vai fazer?".
2. Enxergar quem já está dentro. O relatório mostra que muitas empresas procuram fora o que não mapearam dentro. Os profissionais do nível operacional com duas ou três competências de liderança em alta intensidade são candidatos naturais à primeira gestão, mas raramente são vistos.
3. Direcionar o desenvolvimento de quem já lidera. Saber qual das três competências está ausente permite um plano de desenvolvimento específico, em vez de treinamentos genéricos.
4. Desenhar vagas realistas. O relatório mostra que só 12 pessoas em 2.958 combinam método impecável e decisão rápida em alta intensidade, justamente a combinação que muitas descrições de vaga pedem. Saber quais competências competem entre si ajuda a definir o que é essencial no cargo e o que pode ser apoiado pela estrutura.
5. Ajustar o entorno. Nem toda lacuna exige que a pessoa mude. Alçadas claras, rituais de acompanhamento e expectativas explícitas compensam boa parte delas, desde que a empresa saiba onde estão.
Como começar
• Defina, para cada cadeira de liderança, o que ela exige em decisão, influência e delegação.
• Avalie os candidatos internos antes da promoção, e não depois dos primeiros problemas.
• Mapeie quem já lidera e identifique quais competências precisam de apoio.
• Repita a avaliação periodicamente para acompanhar a evolução.
Promover não precisa ser uma aposta
Promover alguém é uma das decisões mais importantes de uma empresa, e ainda é tomada, na maioria das vezes, com base em intuição e histórico de resultados. Os dados mostram o quanto isso custa: um em cada três líderes ocupando uma cadeira cujos comportamentos centrais não aparecem com força.
A boa notícia é que esse risco pode ser medido antes da decisão.
O relatório completo, com as 16 competências, as combinações mais comuns do mercado e o funil de liderança, está disponível para download gratuito em mapnext.com.br/relatorio-2026. E, no Mapnext, você avalia seus candidatos e líderes com base na Teoria do Big Five, 100% online, com resultado na hora e sem assinatura.
Fontes dos dados citados
• MISSEL; MAPNEXT. Relatório Missel–Mapnext de Competências Comportamentais 2026. Porto Alegre: Missel, 2026. Disponível em https://www.mapnext.com.br/relatorio-2026.
• Benson, A.; Li, D.; Shue, K. Promotions and the Peter Principle. The Quarterly Journal of Economics, 2019.
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